Uma história sobre a procura pelo verdadeiro amor

Kuzu no Honkai é um anime encantador e com uma ótima pegada psicológica. Sendo um seinen, não deixa de nos fazer refletir sobre nossa própria vida. Teoricamente se tratando de um primeiro amor, abrange bem mais do que isso: o próprio amadurecimento e transição da adolescência para a fase adulta.

Sinopse

Kuzu no Honkai nos apresenta seus personagens e o amadurecimento de suas relações no decorrer do anime. Yasuraoka Hanabi é uma garota do colegial que possui uma paixão platônica por seu amigo e vizinho de infância, Narumi Kanai, que agora é seu professor do Ensino Médio. Do outro lado está Mugi Awaya, também apaixonado por sua tutora do fundamental, Akane Minagawa, professora de ambos. Hanabi e Mugi iniciam uma relação com o objetivo de satisfazer seus desejos físicos e, acima de tudo, sua solidão, enquanto Kanai e Akane começam uma relação igualmente controversa. Vemos o cotidiano dos quatro, acompanhados também por seus amigos Sanae Ebato (Ecchan) e Noriko Kamomebata (Moca).

Análise

A trama aparenta se tratar de amor platônico, mas vai muito além disso, abordando temas como solidão, primeiro amor e possessão. Cada personagem tem um passado e personalidade extremamente fortes.

Em Hanabi, vemos a indecisão, o teor do “quem eu sou?”, algo que todo adolescente se questiona ao entrar na fase adulta. Porém, ela se torna uma mulher determinada, que tem certeza de seus sentimentos e desejos na vida. Temos nela, se não a primeira, a segunda maior evolução do anime, passando de uma garota mimada, que apenas necessitava de atenção, para uma pessoa que realmente valoriza seus ideais.

 

Em Moca, vemos a princesinha, alguém que infelizmente alimentou uma utopia. Temos muito de Moca em nós, alimentando sonhos e ilusões, e guardando em nosso coração pedaços de coisas preciosas que nunca mais vão se repetir. Vivemos em loop, no passado e sem futuro, como uma princesa em Versalhes.

 

Em Ecchan, vemos uma garota insegura e solitária, que não se importava de ser usada para conseguir conquistar seu verdadeiro amor. Quantas vezes não fazemos isso, nos imergindo em situações prejudiciais apenas para saciar o sentimento de ilusão?

 

 

Em Mugi, vemos um garoto que se considera um homem, embora seja mesmo um garoto. Alguém que acredita que usa, mas está sendo usado pelo bel prazer das mulheres. Creio que seja o personagem que menos evoluiu durante o anime e talvez o mais imaturo. Representado por sua pouca interação nos últimos episódios, ele poderia ter sido mais bem trabalhado. Acredito que a contribuição de Mugi foi justamente o seu autoconhecimento e autorreconhecimento.

 

 

Sobre Kanai, tal como Mugi, não tenho muito a dizer. Ele foi mal trabalhado e até se tornou meio entediante no decorrer da história, mas foi extremamente importante para evolução dos personagens.

 

 

Como a personagem mais bem trabalhada e original deste anime, temos Akane, uma mulher adulta extremamente infantil, que apenas vive por seu próprio prazer, sem se importar com os sentimentos dos outros. Alguém que apenas vive o tédio de uma vida sem sal, sem sentimentos. Ela se desilude muito, mas não é cruel. Seu crescimento foi perfeito durante a história e, como os outros, conquistou a minha afeição.

Aspectos Técnicos

O anime se trata de uma obra rica em cenografia e colorimetria, além de sua trilha sonora, que alimenta perfeitamente nossas expectativas no decorrer deste seinen. A transição de cores em uma paleta específica representa os sentimentos dos personagens. Bailava de preto a branco, com a alternância de roxo, relacionando-se respectivamente à obscuridade de alguma personalidade, à melhora de outra e à curiosidade. A cenografia adequa um tipo de ambiente a cada um dos personagens: as cerejeiras para Kanai, o céu estrelado para Hanabi, as penas para Moca, a chuva para Ecchan, o céu ensolarado para Akane e um céu sem nuvens para Mugi. Podemos, assim, pensar no simbolismo de cada um e entendermos melhor a sua construção.

As cerejeiras, no Japão, simbolizam o amor verdadeiro, a felicidade, concordando perfeitamente com Kanai, o único personagem que já se sentia pleno e feliz desde o inicio do anime e, então, se transbordou.

O céu ensolarado de Akane nos leva a compará-la com Amaterasu, uma deusa xintoísta conhecida por sua luz e beleza. Alguém inicialmente infantil e narcisista, que se escondeu por muito tempo de seus desejos até, de certa forma, se aceitar, conquistar e iluminar o mundo com seus raios de sol. Além disso, seu nome tem o significado de “brilhante vermelha”, representando as manchas matizadas de seus raios de luz e o simbolismo de suas manchas psicológicas.

 

 

O céu estrelado de Hanabi retrata a esperança, a sorte e a vontade de viver, mas também a solidão. A noite é o lado obscuro do dia, onde muitas vezes nos escondemos e nos privamos do contato de outrem por mera segurança. Não se trata apenas de um céu noturno, mas sim estrelado. Hanabi foi conquistando aos poucos sua plenitude, até estar em fogos de artifício – significado de Hanabi em português.

Noriko, ou crônica, é simbolizada por todos os castelos, príncipes e princesas presentes em sua imaginação, mas especialmente pelas penas, algo que pode lembrar o Tsuru, uma ave branca coroada, conhecida por retardar o envelhecimento, promovendo a mocidade eterna. Igualmente, Noriko conserva o maximo de suas memórias preciosas, retardando o próprio tempo. Ela possui uma face de eterna pureza e inocência, como uma garotinha. Porém, até as penas de um Tsuru caem. Até a tristeza atinge um Tsuru.

 

 

Em Sanae, vemos a chuva. No Japão, esta nos remete às ameixeiras, que, por si só, significam resiliência e perseverança. Como muitas vezes percebemos na personagem, ela é a mais persistente do anime, até mesmo para crescer.

Por último, em Mugi, vemos o contrário de Hanabi. Enquanto ela é a face obscura, ele é a face iluminada. Eu poderia até dizer que seriam um casal perfeito, como Yin e Yang, mas quem disse que a frase “os opostos se atraem“ é verídica?

 

O anime foi uma das mais bem construídas obras que pude admirar, com traços limpos e várias lições de vida. Como um romance maduro, a obra não perde seu foco em nenhum momento. Com roteiro condizente à temática e situações dramáticas não exageradas, podemos ver nele uma obra realista, que expressa a própria procura que a maioria de nós tem: a busca pelo verdadeiro amor.