Confira nesse belíssimo artigo as ligações de Kono Sekai no Katasumi ni e O Túmulo dos Vagalumes nas perdas de uma grande guerra.

Nos filmes de guerra que se vê por aí, a glória é uma das maiores constantes. Seja na morte ou na vitória de uma batalha, o sentimento de conquista se mostra frequente, por mais que seja comemorado em meio a milhares de corpos, aliados e adversários. Filmes como “Até o Último Homem” são um exemplo ideal, pois é perceptível o prazer de Mel Gibson ao exibir cada mutilação sofrida por um japonês anônimo em tela.

Interessante perceber que foi justamente no Japão, em 1989, onde surgiu um dos filmes de guerra mais lembrado quando se trata de abordagens mais próximas das vítimas e da real sensação de conflito. “Túmulo dos Vagalumes”, de Isao Takahata, por meio do cotidiano de um adolescente e sua irmã mais nova durante a Segunda Guerra Mundial, mostra o ponto de vista de quem não tem poder algum sobre as tomadas de decisão das nações. O País se acaba aos poucos ao seu redor, assim como a vida que conhecem, mas Seita e Setsuko são incapazes de ter qualquer poder de melhorar a situação. Podem apenas tentar sobreviver.

Por conta da sensibilidade e crueza de sua história, o filme é lembrado desde então como uma das animações mais tristes já produzidas. É comum citar “Túmulo dos Vagalumes” e ouvir logo em seguida algo como: “demorei dias pra me recuperar”; “nunca mais vou ver nada desse diretor”; “me deixou arrasado”.

A partir de uma situação quase idêntica, “Neste Canto do Mundo” foi lançado em 2016 no Japão. Também uma animação, o longa leva o espectador para os arredores de Hiroshima, alguns anos antes da explosão da bomba. Se acompanha o amadurecer de Suzu Urano, uma jovem da região, que precisa lidar com o cotidiano de recém-casada e a vida com os sogros logo após a entrada do Japão na Segunda Guerra. Por morar no interior, o conflito parece algo distante dos moradores, que escutam apenas pelo rádio e informativos oficiais as atualizações da Guerra.

Com total domínio da história que pretende contar, o diretor Sunao Katabuchi mostra justamente esse distanciamento por meio dos planos abertos que permeiam todo o filme. No início, quando as paisagens são belas e coloridas, até contrastarem com o cenário devastado que surge após os bombardeios.

Apesar da semelhança de cenário com o longa de Isao, “Neste Canto do Mundo” ganha sua particularidade por conta de Suzu, uma protagonista falha, mas crível. Por ser desenhista, muito de sua habilidade se traduz para o próprio filme, como uma quase quebra da quarta parede. Um exemplo é quando um determinado personagem se afasta, e Suzu tem a impressão de observar o amigo com as cores de uma aquarela. Tais elementos dão uma identidade fundamental para o filme.

Comparar as duas obras pode parecer uma estratégia simplista, mas o diálogo entre ambas é claro demais para passar despercebido. Ao colocar o ponto de vista na vítima e eliminar espetáculos gloriosos, “Neste Canto do Mundo” também se situa como uma obra capaz de mostrar os reais efeitos de uma guerra e em como ela devasta quem participa dela.

Ao mesmo tempo, o filme não esquece  que os japoneses eram nacionalistas fervorosos durante o período da Guerra, algo ilustrado pela própria Suzu e seu marido. Apostando em um traço que coloca todos os personagens em alturas quase infantis, “Neste Canto do Mundo” é uma obra importante sobre a Segunda Guerra, que não apela para sentimentalismo, mesmo retratando um momento devastador do Japão.

A falta de grandes acontecimentos no cotidiano de Suzu ilustra como o início de um conflito abala as vidas mais comuns. E é nesse ponto onde o filme mais acerta, pois não é a glória o ponto mais importante, mas como milhões de vidas deixam são alteradas a todo momento. É nas casas desmontadas, no racionamento de comida, nos mutilados que passam pelas ruas. Englobando ainda além disso, “Neste Canto do Mundo” e “Túmulo dos Vagalumes” consegues ser mais realistas que qualquer longa americano sobre o mesmo conflito.

 

Texto cedido pelo jornalista Hamlet Oliveira, do Jornal O POVO. 

Link do texto original:  As perdas de uma guerra na animação japonesa